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Ter Menos Ser Mais

Encontre nas coisas simples a liberdade, a felicidade e a intencionalidade da vida

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Encontre nas coisas simples a liberdade, a felicidade e a intencionalidade da vida

Ter | 21.05.19

A minha história, de um beco sem saída ao propósito de vida!

Vânia Carranca

 

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Levei uns anos a escrever este texto sobre mim. É dificil falar sobre a minha vida na internet para entender o contexto deste blog acho que contar o que me levou até aqui é importante.

 

Num beco sem saída:

Como muitos licenciados neste país, depois de terminar o meu curso fiquei num beco sem saída. Sou Licenciada em Medicina Nuclear e a única hipótese de emprego seria a emigração. Admiro imenso a coragem de quem emigra, no meu caso e por vários motivos não tinha nem a coragem nem as condições para o fazer. 

 

Sem opções nem saídas tive de procurar trabalho, independemente, da minha formação. Acabei empregada num Call Center de uma empresa de telecomunicações, como tantos outros. Não era, de todo, aquilo com que inocentemente tinha sonhado durante quatro anos de licenciatura. Mas encarei como sendo uma situação temporária até ter uma oportunidade na minha área. Essa oportunidade nunca chegou, apesar dos meus esforços, ouvia sempre o mesmo, andam todos os teus colegas a procura da oportunidade. Passaram-se dois anos, continuei no Call Center, e ao final de um ano foi convidada a trabalhar no gabinete de reclamações, supostamente um trabalho menos agressivo que uma linha de atendimento ao cliente. Nestes dois anos a minha saúde mental foi se detriorando, o trabalho era stressante, todos os dias ouvia ofensas por parte dos clientes que era obrigada a contatar e isso foi-me destruindo aos poucos. Tornei-me amarga e agressiva como revolta por estar "condenada" aquele trabalho.

 

Comecei a viver de ordenado em ordenado e a libertar todas as minhas frustrações na aquisição de objectos, roupas e sapatos. Afinal a única satisfação daquele emprego era o ordenado. Quando podia ia para um centro comercial, comprava roupa nova e na semana seguinte entrava no trabalho com as minhas novas peças de roupa como se isso resgata-se alguma da minha auto estima e da minha dignidade perdida diariamente naquele local.

 

A família começou a notar a minha infelicidade e mostrando sempre o seu apoio pediam-me que o deixa-se antes que afecta-se a minha saúde mental a um nível mais sério.

 

Mas eu estava presa a possíbilidade de ficar efetiva e ter um trabalho para a vida, de ter a tal estabilidade que todos desejamos para poder começar a construir alguma coisa na minha vida.

 

Viver na estabilidade da infelicidade era para mim mais fácil do que enfrentar o medo da mudança. 

 

 

O Yoga era o caminho:

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A par disto e para conseguir suportar toda a exigência do trabalho comecei a praticar Yoga, quantas vezes, apenas consegui sair da cama para trabalhar porque sabia que ao final do dia iria ser recompensada com a minha aula de Yoga e recuperar algum bem estar e paz. Certo dia e sem que alguma vez tenha pensado nisso o meu professor de Yoga convidou-me para ir tirar o curso de instrutora de Yoga argumentando que via em mim essa capacidade e ofereceu-me o seu Ashram para posteriormente estagiar e ter a oportunidade de iniciar esse percurso. 

 

Este convite apanhou-me completamente desprevenidade e comecei desde logo a arranjar mil e uma desculpas para não fazer esta formação. Que acabei por não a fazer naquela altura, apesar de ter ficando a pensar naquela proposta...

 

 

Entretanto a realidade mantinha-se:

A determinada altura tive de sair do Call Center, não suportava mais e felizmente tive a consciência que aquele trabalho me estava a destruir. Saí sem nada e fiquei desempregada por um ano. Engraçado que no meu primeiro dia de desemprego o meu pensamento foi, agora não vou ter dinheiro para comprar roupa nova... estúpido eu sei, mas era das poucas coisas que me motivavam a ter aquele trabalho. 

 

Começou uma nova busca por emprego que se mostrou estremamente desgastante. Demasiado qualificada, condições decadentes de trabalho, ordenados vergonhosos, enfim...foram dezenas e dezenas de entrevistas. Cada vez que saía de uma entrevista chorava por um dia inteiro e cheguei mesmo a acreditar que nunca iria voltar a ter trabalho, que para o mercado e mesmo com a minha formação eu simplemenste não tinha qualquer valor. 

 

Foi ao longo do ano em que estive em casa e também, muito por força, da falta de rendimentos descobri o minimalismo. Afinal tinha mesmo de viver com menos. Mas foi possível para mim, ao viver com tantas limitações, perceber o que realmente é importante e como podemos ser felizes dando devido valor aquilo que temos e não a viver constamente num pensamento de falta,  procurando constantemente, vendo sempre o que é preciso comprar, aquilo que ainda não temos mas queremos. Foi possível para mim perceber que a aquisição de objetos novos trás felicidade temporária e não uma vida preenchida! Percebi que tendo as nossas necessidades básicas suprimidas ( que tinha por ajuda do meu marido e familiares) pouco mais precisamos para sermos realmente felizes. 

 

 

O Yoga veiu para ficar: 

Finalmente aceitei a ajuda do meu marido e foi tirar o curso de Yoga, já tinha um propósito, já tinha um caminho! No meio daquela falta de oportunidades eu apenas queria fazer um trabalho que realmente fizesse sentido para mim, que me fizesse acordar de manhã com um sorriso.  Acredito que esta motivação para tirar a formação em Yoga, me levou a conseguir um emprego em dois dias, coisa que durante um ano não aconteceu.

 

Saí de casa e pensei para mim própria, hoje vou arranjar um emprego para pagar o meu curso de instrutora de Yoga. E assim foi, peguei nos meus currículos vi uma livraria e entrei. Deixei o CV e no dia seguinte estava na entrevista e no outro dia a trabalhar. 

 

Mais um ano se passou, tirei o curso e trabalhei a noite para o pagar. Não foi um período fácil, sacrifiquei muito do meu tempo familiar para conseguir o meu objetivo mas terminei. Praticava Yoga durante o dia, quando o meu marido chegava a casa eu saia para a livraria e voltava a uma da manhã. Quantas vezes nos cruzamos apenas a porta, um a entrar outro a sair. 

 

Depois disto trabalhei durante um ano como Professora de Yoga. Aqui as oportunidades existiam, ao contrário da minha área de formação, mas também não foi um caminho fácil. Dei muitas aulas de graça, paguei algumas vezes para dar aulas pois aquilo que ia ganhar não cobria tão pouco a deslocação. Ganhei muito mal durante meses, mas nunca desisti. Ao final de um ano, estava a trabalhar e a poder viver realmente das minhas aulas de Yoga

 

 

Finalmente descobri o meu propósito de vida:

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Descobri o meu propósito de vida, adoro aquilo que faço, sou apaixonada pelos meus alunos que acabam muitos deles por se tornar amigos. Já não procuro aquela estabilidade que achava que traria segurança a minha vida, é um trabalho sem contratos e por isso mais instável, mas que me trás a liberdade de fazer, estar e construir o meu caminho.   Este trabalho permite-me trabalhar a criatividade ao criar as minhas aulas e ter a responsabilidade de poder fazer a diferença naquela hora em que tenho entregue a mim o bem estar, o corpo e a mente dos praticantes que em mim confiaram. 

 

Acredito que da mesma forma que o faria com a minha licenciatura caso tivesse oportunidade, estou a contribuir para a saúde das pessoas com quem trabalho e que talvez no meio de uma aula de Yoga, está alguém que conseguiu sair da cama para enfretar mais um dia de trabalho porque ao final do dia, juntamente comigo, irá praticar Yoga e de alguma forma recuperar o seu bem estar e paz. 

 

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